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O Ponto de Partida: Onde Foi Que Eu Acertei?

Para quebrar a rotina do “Onde foi que eu errei?”, dessa vez eu estou tentando responder a mim mesmo: mas onde foi que eu acertei?

A resposta sempre volta para o mesmo lugar: ler um livro.

Muito antes de ir para a escola, com cinco anos de idade, a tia da minha mãe, a tia Laura, me ensinou a ler. Até aí, nada de novo. A não ser pelo fato de que eu não tinha um livro didático, um caderno ou um professor. Era a tia Laura e alguns gibis do Pato Donald e da Turma da Mônica.

Enquanto isso, eu olhava meu irmão mais velho, já na escola, se quebrando todo entre o C e o Q. Eu observava aquilo tudo como algo solene, importante, capaz de dar superpoderes a quem dominasse aquela arte.

Recordo ainda hoje, com meus 50 anos, do primeiro dia de aula. Imaginei que seria uma continuidade dos aprendizados com a tia Laura, mas para minha frustração, vimos o “a” de abelha e nada mais. No entanto, havia um colega que nunca esqueci. O nome dele era Santiago, e ele também já sabia ler. Ele folheava um livro que trazia um monte de figuras de animais.

Aquela experiência foi tão marcante que, naquela noite, pedi à minha mãe um presente de aniversário. Meio espantada, ela perguntou que tipo de livro eu queria. Com toda a seriedade, eu respondi: “Mãe, eu quero um livro de animais.” Tive que esperar por mais de dois meses, mas o presente veio em dobro: um livro de língua portuguesa e outro de… Ciências. Um livro de Ciências. Era como receber os segredos mais profundos da Alquimia. E o que tornava tudo mais memorável era o fato de que eu só começaria a aprender os segredos daquele livro a partir do quarto ano.

A Chave do Céu: A Descoberta da Biblioteca

Uma experiência tão marcante quanto essa só fui ter novamente no quarto ou quinto ano. Foi a primeira vez que entrei em uma biblioteca. Mal podia acreditar no que via: crianças mais velhas sentadas em grupos, um silêncio reverencial. E livros, e mais livros, e mais livros.

Foi meu primeiro contato com a professora Maria Helena. Hoje, já não sei se são memórias reais ou imaginadas, mas só poderia ser Maria mesmo o nome, porque eu estava no paraíso com a mãe de Deus. Ela me mostrou onde sentar e, antes que eu fosse embora, me entregou a chave do céu: a notícia de que eu poderia fazer uma carteirinha! Com ela, eu poderia levar qualquer livro para casa. E quando eu devolvesse, poderia pegar outro, e depois outro, e mais outro…

Meu Virgílio, ou já seria Beatriz, me conduziu pelas estantes até a famosa coleção Vaga-Lume. Passei para os livros mais “grossos”: A Volta ao Mundo em 80 Dias, Viagem ao Centro da Terra, Ivanhoé. Meus favoritos eram os de heróis cavaleiros, até que veio uma das obras mais marcantes da minha vida: Winnetou!

Eu li e reli aquele livro não sei quantas vezes. Meu universo mental estava povoado de Apaches, Sioux e Comanches. E foi assim até que algo terrível aconteceu. Vieram as férias! Nada poderia ser pior. A biblioteca estaria fechada por uma eternidade.

A Maior Biblioteca do Mundo: A Conquista do Sesi

Após a primeira semana da eternidade, minha mãe, preocupada, me ouviu falar da falta que sentia dos livros. Ela sofreu, pois não tinha dinheiro para comprá-los. Foi quando um dos meus irmãos sugeriu uma solução: talvez no Sesi houvesse uma biblioteca.

Fiquei enlouquecido. No outro dia, fizemos uma caminhada de 20 minutos até lá, torcendo para que me deixassem entrar, já que ninguém na minha família trabalhava na indústria. O guarda informou que a biblioteca só abria às nove. Foi uma eternidade dentro da eternidade.

Quando a porta finalmente se abriu, quase enlouqueci. Era a maior Biblioteca do Mundo! Umas cinco ou seis vezes maior que a da minha escola. E enquanto eu transitava pelas estantes, encontrei uma coleção inteira de livros com capa grossa. Peguei o primeiro: Winnetou vol. 1. Era o mesmo livro, mas muito mais grosso, com letras miúdas. Depois, o vol. 2, o vol. 3… A coleção inteira de Karl May, com cerca de 20 obras enormes. E a melhor surpresa ainda estava por vir: descobri que eu poderia ter o bem mais precioso do mundo… a carteirinha daquela Biblioteca!

Desde aquele dia, jamais passei pela sensação de querer ler um livro e não poder.

A Jornada do Leitor: De Ver a Ser

Já adulto, próximo aos trinta anos, tive uma experiência semelhante ao entrar na Biblioteca da PUC-RS, quando fui cursar Filosofia. Foi a melhor que já conheci, em termos qualitativos. De lá para cá, convivi com estudiosos de todas as áreas, fiz cursos de tudo que se possa imaginar, e descobri uma coisa: sou um leitor.

Tentei seguir listas, cronogramas. Achava que não percebia as coisas, que entendia tudo de forma errada. Mas continuei lendo. Encontrando os livros novos, relendo os velhos. Descobri nesse tempo todo que o melhor método é estar completamente aberto para a obra e disposto a deixar que ela opere mudanças em quem nós somos.

A grandeza de uma obra é justamente essa. Você a lê. Você vive. Você a lê novamente e vê mais coisas, e vê melhor as coisas. Se eu pegar o Rei Lear hoje, ele vai continuar entregando mais e mais. E o gênio faz isso sem nos sentirmos menores; pelo contrário. E daqui a pouco, vejo alguém falando sobre algo que eu não vi, e percebo que, sim, está lá.

Apreciar uma grande obra sempre será um exercício de autoconhecimento, de conhecimento das pessoas e do mundo.

Nosso Convite: Um Exercício de Apreciação

Esta página foi criada com esse espírito. Eu te entrego algo que eu vi, ou algo que alguém viu e me chamou a atenção. Você vai na obra, vê se faz sentido. Você pode me falar sobre algo que eu não publiquei, mas que faz total sentido para você. E eu vou aprender, vou olhar novamente.

Vamos seguir apreciando até o ponto onde a obra se revele em sua totalidade. E talvez, continuar essa apreciação até o momento em que o exercício de ver se converta no exercício de ser. Ser melhor e, em última instância, ser mais feliz.

O artista criou a obra para ser apreciada. Esta página espera contribuir justamente com isso, como um exercício constante de apreciação artística.

Todos são bem-vindos e toda a contribuição é bem-vinda.