A primeira palavra da literatura ocidental não é “Deus”, “Amor” ou “Guerra”. É “Mῆνις” (Mênis) – Ira. “Canta, ó deusa, a ira de Aquiles, filho de Peleu…”. Com este chamado inaugural, Homero não apenas estabelece o tema de seu poema, mas nos apresenta à força motriz mais fundamental e destrutiva do universo heroico. A Ira de Aquiles não é um mero ataque de raiva; é uma fúria de proporções cósmicas, um sentimento quase divino em sua intensidade, que serve como eixo para a tragédia, a glória e a eventual redescoberta da humanidade na Ilíada.
Fase 1: A Origem – A Ferida na Honra (τιμηˊ – timê)
A ira não nasce no campo de batalha contra os troianos, mas dentro do próprio acampamento Aqueu. O conflito entre Aquiles, o maior guerreiro, e Agamêmnon, o comandante supremo, é o catalisador. Quando Agamêmnon, para compensar a perda de sua cativa Criseida, toma para si a escrava de Aquiles, Briseida, ele não está cometendo um crime passional. Ele está perpetrando o maior dos insultos no código de honra heroico.
Briseida, naquele contexto, é o símbolo material da timê de Aquiles – o reconhecimento público de seu valor e de suas proezas. Ao tomá-la, Agamêmnon efetivamente declara que a contribuição de Aquiles é nula. A ira que explode em Aquiles é, portanto, a fúria de um homem cuja identidade e razão de ser foram publicamente aniquiladas. Sua reação é radical: ele se retira do combate. Esta primeira fase da ira é um ato de orgulho ferido, um boicote calculado para provar seu valor através de sua ausência. É uma ira ressentida, que se alimenta da observação das sucessivas derrotas de seus próprios companheiros.
Fase 2: A Transformação – Da Ira Ressentida à Fúria Desumana
O ponto de inflexão da epopeia é a morte de Pátroclo. O amado companheiro de Aquiles, vestindo sua armadura, é morto por Heitor. Neste momento, a ira de Aquiles sofre uma metamorfose aterradora. Ela deixa de ser uma fúria calculista e ressentida contra Agamêmnon para se tornar um desejo de aniquilação absoluto e desumano, focado inteiramente em Heitor.
Esta nova ira apaga qualquer traço de heroísmo calculado. Aquiles retorna à batalha não pelo bem dos Aqueus, mas como uma força cega da natureza. Sua aristeia (seu momento de glória em batalha) é um espetáculo de horror: ele recusa o pedido de clemência de Licaonte e o abate friamente; ele enche o rio Escamandro com tantos cadáveres que o próprio deus do rio se ergue contra ele. Ele não busca mais honra, mas a obliteração. O clímax dessa desumanização é o tratamento dado ao corpo de Heitor: após matá-lo, ele o amarra à sua biga e o arrasta ignominiosamente ao redor dos muros de Troia, uma profanação dos rituais funerários, a mais sagrada das leis não escritas. Nesta fase, a mênis transformou o maior dos heróis no mais selvagem dos monstros.
Fase 3: A Resolução (Catarse) – O Encontro com Príamo e a Redescoberta da Humanidade
O poema poderia ter terminado na vitória e na vingança brutal. Mas Homero nos reserva o mais sublime dos desfechos no Canto XXIV. Príamo, o velho rei de Troia, guiado pelos deuses, entra sorrateiramente no acampamento Aqueu e se ajoelha diante de Aquiles, beijando “as mãos terríveis, assassinas, que tantos filhos lhe mataram”.
Diante da dor e da coragem daquele pai idoso, algo em Aquiles se quebra. Príamo o faz lembrar de seu próprio pai, Peleu, velho e solitário, esperando por um filho que sabe que não voltará. Pela primeira vez, Aquiles vê em seu inimigo não o assassino de Pátroclo, mas um espelho de sua própria condição mortal, de sua própria dor e da dor de seu pai. Os dois choram juntos: Príamo por seu filho Heitor, Aquiles por seu pai e por Pátroclo.
Neste momento de compaixão compartilhada (ἔλεος – eleos), a mênis finalmente se dissolve. A ira que o separou da humanidade cede lugar à empatia que o reconecta a ela. Ele devolve o corpo de Heitor, garantindo uma trégua para os ritos fúnebres. A Ilíada, que começou com uma ira que trouxe “incontáveis sofrimentos aos Aqueus”, termina não com a queda de uma cidade, mas com um ato de humanidade reconciliadora. O poema nos ensina que a verdadeira grandeza heroica não reside na capacidade de destruir, mas na difícil e dolorosa jornada de volta à nossa humanidade compartilhada.

